Gosto de ler desde sempre. Que me lembre, li de tudo que me caía às mãos: gibis, fotonovelas, romances de jornaleiro, jornais, revistas, livros.
Livros vieram por último na lista, não na sequência de
leituras. Lembro-me de umas férias em que li, ao mesmo tempo, Dostoievski
(Crime e Castigo) e Grande Hotel (uma revista de fotonovelas). Em outros
momentos, misturei Luluzinha e Machado de Assis (A Mão e a Luva), Jerônimo – o
Herói do Sertão e Viriato Corrêa (Cazuza), Mandrake e Júlio Verne (Vinte Mil
Léguas Submarinas).
O que intento argumentar é que não “evoluí” do “puro
entretenimento” para a “literatura de qualidade”. As leituras foram sendo
processadas de modo simultâneo, daí, penso, ser eu hoje uma leitora sem freios
nem condições que não sejam meu próprio prazer de ler.
Prazer, entretanto, que não equaciono com
entretenimento apenas no sentido de me divertir, mas de me manter concentrada,
interessada, absorta, introspectiva e pensante. O que me entretém na leitura me
fala através dos sentidos, das emoções, do raciocínio, das ideias, das sensações.
Fala-me à minha vida, aos meus valores, às minhas crenças, à minha lógica, aos
meus amores.
Quando criança, muitas vezes levei pequenos cascudos
da minha mãe, furiosa porque me chamava e eu não “ligava”, pois estava “em
transe com aquele livro” – palavras dela.
Meus “transes” me iluminaram e (ainda) me iluminam.
Mudaram algumas leituras porque mudei eu, e as circunstâncias da minha vida, e
vieram e se foram muitos interesses, outros permaneceram, ou retornaram em
diferentes níveis de motivação e entrega.
Até tive a minha fase de busca de erudição, de
compromissos vários com a academia e a intelligentsia, mas passou, como tantas
outras pretensões. Os livros, porém, não passaram nunca. Ainda são. Hoje
carrego vários comigo em qualquer trajeto, no meu e-book, continuo conversando
com eles com o mesmo prazer, a mesma descompostura da criança a quem pouco se
lhe dava se lhe aprovavam ou não o que lia. O proibido, ah!, esse lia-se
escondido.
Foi
com o prazer de encontrar um pensamento em comum com meus sentimentos a respeito
da leitura, portanto, que recentemente descobri um artigo no Publishnews, não
muito recente – está datado de 14/08/2014, mas ainda muito oportuno.
O autor, Pedro Almeida, jornalista e professor de
literatura, aborda a questão de como formar novos leitores, e comenta sobre “a crença de que há um percurso
necessário para se fazer com a Literatura, de que há um tipo de evolução, de que ler livros cada vez mais
complexos é um ótimo caminho”. E afirma: “Não é!”
Ele
explica seu ponto de vista com muita propriedade – foi uma leitura que me
entreteve, no melhor sentido da palavra. Pensei com ele, e me deu prazer
pensar. E concordo plenamente com as palavras com que finaliza seu argumento:
“Penso
que é preciso estar disposto a ver e a aprender a todo momento, sair do lugar
confortável do mundo culto em que nós nos encontramos hoje e dar o direito de
outros grupos, antes sem condições até de ler, a ler o que querem. Leitura é
sempre boa e nossa Educação seria muito melhor se promovida por uma leitura sem
controle”.
É. Leitura
sem controle é bom demais. Além disso, com as novas tecnologias desse mundo em
que vivemos, estou eu muito feliz de que se abra o espaço de direito de “outros
grupos antes sem condições até de ler”, não só para que leiam o que querem, mas
para que escrevam e expressem seus modos de ver e se apropriar do mundo,
literário ou não.
Para ler
o artigo do prof. Pedro Almeida, clique neste link: http://www.publishnews.com.br/telas/colunas/detalhes.aspx?id=78264